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Nossas crônicas

Nossas crônicas: Caixinha de guardados

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doces

Emprego um uso prático para as minhas caixas. Contas pagas e a pagar, algumas bijus, remédios, boinas e chapéus são os itens que guardam. Quanto aos guardados inseridos num tempo que vai e não volta, esses os carrego comigo.  Lugar mais amplo e irrestrito, capaz de cabê-los de uma só vez e a todo e qualquer tempo, eu não poderia achar.

As lembranças que perco sem querer e as que o meu subconsciente rejeita com razão, decerto estão em alguma espécie de embrulhado do esquecimento. Deixe-as lá. Não as lamento, porque é salutar esquecer para viver. Importa seguir em frente. A memória? Ela sabe se cuidar. Sempre cuida de continuar, pois é da sua natureza o insinuar dos dedos pelas frestas das portas e janelas de nossa consciência.

A memória, aliás, é algo que me intriga. É tudo e também nada. É espaço e tempo. Tem um quê de lugar. Sabe ser época, climas e eras. É ligeira, também duradoura. Eterna e impermanente. Caminho e estrada. É também parada, verdade e ficção. Por fim e para uma infinidade de começos, é uma completa e inacabada caixa de guardados.

Dias desses peguei-me a pensar que, às vezes, são os acontecimentos mais corriqueiros os que se revelam uma verdadeira caixinha de guardados. Abre-se a tampa e uma multidão de lembranças nos invade a casa. No plano da imaginação, as espalho na cama, na mesa, no chão e aonde mais puder. Captando a deixa, rendo-me e sigo o seu fluxo.

Agora mesmo. Acabei de ganhar uma caixa de bombons da minha irmã e não é que fui dar de cara com a minha infância?

Eu, minha mãe e meus irmãos no cenário costumeiro de nossos passeios. As Lojas Americanas. O paraíso das guloseimas na época. Ainda hoje continua a sê-lo para muita gente, eu sei.  Mas, golpe de vista, as lembranças infantis encarregam-se de colorir os cenários com as cores mais vívidas do universo. Logo, portanto, tratemos de ressignificar a loja como a fantástica fábrica de doces e continuemos a história.

Terminada a sua inspeção por todo o estabelecimento, minha mãe, incansável, seguia para a sessão de doces. Eis a deixa para o término do passeio: um pacote de balas ou uma caixa de bombons. Seguia-se, então, o grand finale  em que minha mãe abria o pacote/caixa e distribua o seu conteúdo entre nós, no caminho a pé de volta pra casa.

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Pronto. É o que está guardado: somos feitos de memórias. Muitas delas grandiloquentes, ainda que sequer existam. Ilusões da memória… sabe-se lá que espécie de fenômeno é esse que, surgindo inadvertidamente, passa a fazer parte da gente, da nossa história. Não sei o que é. Mas, gosto do quão poético é esse imaginar que tem corpo, alma e coração. De modo que, se tivesse que viver essa memória mil vezes, mil vezes chegaria a mesma conclusão. A grande revelação, se preferir. O auge dos passeios não eram os doces. Mas, sim, única e especialmente, o estar juntos.

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