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Projeto Ilha Deserta: O vermelho e o negro, Stendhal

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Embora da narrativa saltem chispas, a minha experiência foi marcada, em vários momentos, pelo cansaço.  Julien Sorel, o nosso protagonista,  exigiu muito da minha complacência.  E somado a isso creio que a letra pequena da edição que tenho aqui comigo seja mesmo a  grande responsável pela leitura lenta e espaçada a qual tive de recorrer.

Mas, continue comigo. Não considere que tal fato desabone o livro. Longe disso. A bem da clareza, estamos diante de um protagonista cujos atos estão sempre a desafiar o leitor.  Posso dizer que valeu a pena acompanhar os passos desse rapaz, bem como valeu cada instante em que me dediquei a conhecer  o universo complexo e perspicaz de Stendhal.

Inscrevo O vermelho e o negro na categoria dos livros cuja história guardamos conosco por horas, dias, semanas, anos-luz após o término da leitura. Pois foi assim que a narrativa e os seus desdobramentos continuaram a martelar minha mente dias após ter lido a obra até o fim.

A história narra a vida de Julian Sorel, um camponês, filho de  carpinteiro, que, ao longo de sua existência, concentra os seus esforços para ascender-se socialmente a qualquer custo, ainda que em prejuízo de outras pessoas.  Lançando mão da hipocrisia de ser quem não é e de fingir acreditar no que de fato despreza,  ele consegue penetrar no meio da alta sociedade para assim alcançar o intento de enriquecer-se.

No entanto, o que Julien consegue acumular mesmo são contradições: o desprezo pelos ricos, ao mesmo tempo em que a eles quer se juntar, a vida dividida entre a batina, de falsa aparência; e a carreira militar, a  sua verdadeira vocação.

Fora isso, Julien junta consigo a combinação de elementos explosivos: é um bonapartista em época da restauração da monarquia francesa. (Se você não conseguir compreender as implicações disso, é aconselhável conferir o panorama histórico da época sob pena de perder o fio da meada dos acontecimentos narrados). Não bastasse isso, ao longo da narrativa, iremos nos defrontar com a sua falta de sutileza no trato das questões amorosas.  Elementos que combinados culminam em um trágico desfecho que põe fim às pretensões e ao idealismo de Julien Sorel.

O pior é que eu, maternal até o último fio de cabelo,  bem que esperei uma sacada romântica do autor para solucionar tal conflito. Por que, pergunto eu, estou aqui a perder tempo tentando resolver o problema de alguém que, convenhamos, não é nenhum anjinho na terra? Mas, felizmente, não há espaço para os sentimentalismos aqui.

O autor é fiel em retratar a desilusão e o idealismo de uma época pós-napoleônica. Aspectos bem distinguíveis também no cerne íntimo dos personagens, especialmente, do protagonista. A personalidade, a psiquê de Julien é tão bem urdida que, à força de ocultar as suas reais motivações, torna-se um ser quase indecifrável para os demais personagens.

Mas aí está o seu perfil: trata-se de um alguém que se mostra com ares de herói.  Oculto dentro de si, revela-se uma outra face, o seu verdadeiro estado de debilidade, pobreza e cansaço. Secularista, o seu destino já está selado desde o inicio. Não há esperança para que vinguem os sonhos, as expectativas e  os projetos. Sequer há esperança para si mesmo.

Devido ao seu comportamento ambíguo, excetuando-se a sua fidelidade à causa liberal, torna-se difícil discernir atitudes sinceras da parte de Julien. Peguei-me às vezes pensando: será? Mas daí  eu já havia desacreditado do moço. Seus ares de superioridade falam por si. A confiança exagerada em si mesmo que o levava a acreditar-se merecedor de uma posição social  do qual foi privado por não ser bem nascido pautavam suas intenções e realizações. Mas o que de fato fez para merecer chegar lá a não ser servir-se da hipocrisia, é de se perguntar.

Outro ponto digno de menção diz respeito aos relacionamentos amorosos de Julien com a Mme. De Rênal e depois com Mathilde de La Mole. O teor insólito de tais relacionamentos me levaram a indagar se havia uma certa deficiência de educação sentimental da parte de Julien. Havia a frieza, as atitudes calculistas e o orgulho presentes em suas ações, mas certa impetuosidade sugeria  um rapaz obtuso nas questões do amor.

A relação com Mathilde é algo assim de chocante. O exagero de amor-próprio de ambos fazia do caso que mantinham uma experiência de pura crueldade. Fiquei pelas tampas com esses dois. E por fim, tinha que ser esse par a protagonizar um dos desfecho mais extraordinário que já li.

Gente do céu, o que foi esse fim? Não consigo tirá-lo da cabeça.

Mais do que o compromisso do autor com os dramas humanos ocasionados por determinações políticas, tal desfecho traz a implicação de que o destino segue emaranhado com o homem integral, isto é, com a sua personalidade, suas vontades, decisões, inclinações e ações.

Bem, por fim, o que me resta dizer a não ser que a escrita de Stendhal é muito bela? Contida e enxuta. Penetrante. Conhecedora da alma humana, gera desconforto. Portanto, prepare-se porque há espelhos em todos os cantos de suas páginas.

Ah, sim!  O livro é rico em detalhes do contexto da época, sem se prestar ao didatismo. Para quem se interessa, vale a pena conhecer o pano de fundo histórico sobre os quais a trama é desenvolvida.

Assim como em Madame Bovary, sinto que devo extrair mais da obra por intermédio de futuras releituras. E sabe o que mais? Deu vontade de me aventurar à leitura dos clássicos igualmente ou tão mais brilhantes que existam por aí.

 

Essa leitura integra o desafio literário Projeto Ilha Deserta. Saiba mais sobre o projeto aqui.

Leia a nossa impressão de leitura referente ao primeiro mês do Projeto. A metamorfose, Kafka;

Leia a nossa impressão de leitura referente ao segundo mês do Projeto. Quincas Borba, Machado de Assis;

Leia a nossa impressão de leitura referente ao terceiro mês do Projeto: As Reinações de Narizinho, Monteiro Lobato.

Leia a nossa impressão de leitura referente ao quarto mês do projeto: Madame Bovary, Gustave Flaubert

Leia nossa impressão de leitura referente ao quinto mês do projeto: O conto da ilha desconhecida, José Saramago

E saiba mais sobre o livro que inspirou o projeto Ilha Deserta aqui.

 

Projeto Ilha Deserta: O conto da ilha desconhecida, José Saramago

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Cá estou eu. A nossa ilha invadiu a Ilha Desconhecida de José Saramago. Parece um início de texto meio redundante para você? Pois é, mas foi esse o convite proposto por ele para mim.

Receosa, peguei-me fazendo a mesma pergunta do personagem do conto por ele criado: E que ilha desconhecida é essa de que queres ir à procura .

Saramago, que ilha é essa afinal?

Seria um conto sobre sonhos impossíveis: a busca por uma ilha desconhecida?

Enfim, apostei nesta viagem e lá fui eu para a ilha de Saramago. O trajeto foi curto, porém intenso. Percorri os caminhos traçados pelo autor e confesso que foi uma experiência intrigante. Sentei, tomei fôlego e fui. Porque o conto de Saramago é sem parágrafo. Quando viu, já foi. Piscou, acabou. Simples assim.

Após a leitura, restaram interrogações na cabeça. Isso é ruim? Absolutamente que não. Gosto de livros que instigam e me levam à reflexão.  O que foi possível constatar com toda essa história?

  • A ilha não é um lugar cercado de água com uma terrinha e coqueiro no meio. Ela tem cabelos, olhos, mãos, braços e pernas. Eu sou essa ilha a ser descoberta. São tantos os pontos recônditos  por descobrir e  creio que jamais serão descobertos todos.

“E essa ilha desconhecida, se a encontrares, será para mim, A ti, rei, só te interessam as ilhas conhecidas, Também me interessam as desconhecidas quando deixam de o ser, Talvez esta não se deixe conhecer

  •  Peguei-me pensando sobre a seguinte questão: nesta jornada em busca do desconhecido, muitas são as vozes que nos farão desistir de nossos sonhos e nos induzirão a pensar que tudo não passa de delírios, loucuras que dão e passam. No entanto, se há a firme intenção de sair em busca de encontrar algo, vá. Estacionados, não fazemos nada. (Pequena pausa para comentário: Calma, que não se trata de autoajuda. É apenas uma constatação). Óbvia, por sinal.
  • Enxergar de forma diferente o que está ao nosso redor e, surpreendentemente, descobrir algo novo. Porque não? Exercite!

(…) deste modo que o destino costuma comportar-se conosco, já está mesmo atrás de nós, já  estendeu a mão para tocar-nos o ombro, e nós ainda vamos a murmurar, Acabou-se, não há mais  que ver, é tudo igual.

Essa sensação de não finitude da obra é o que sobra da leitura, ou seja, ao me debruçar sobre a narrativa, mais e mais pontos de interrogação foram surgindo. E, inevitavelmente, os questionamentos acerca do homem, suas aspirações, sonhos e devaneios continuam. O livro me tocou justamente por esse motivo, pois traz à tona temas que nos são afins.  Afinal,  todos nós vivenciamos em nosso dia-a-dia o que Saramago expõe neste conto de forma sutil.

Cabe a você encaixar as peças que podem, por vezes, parecer desconexas. Admirada estou com a perspicácia do autor que não entregou o sentido da história. Inteligentemente construiu uma narrativa que, em um primeiro momento, não faz sentido, mas  é repleta de mensagens. Por fim, compreendo que a arte da escrita está em não  oferecer as conclusões de mão beijada. Penso ter descoberto nesta viagem a minha ilha, Saramago.

Com isso não quero dizer, caro leitor, que o meu entendimento seja o seu entendimento. Certamente os que já leram e os que ainda lerão a obra trarão compreensões distintas sobre o que ali está escrito. E isso é maravilhoso!

Proponho a você, que nos lê, embarcar neste navio e conhecer os personagens deste conto e que nos são tão próximos. Você nem imagina o quanto.

E aí, bora? O navio parte em breve para mais uma viagem rumo à Ilha Desconhecida.

 

Essa leitura integra o desafio literário Projeto Ilha Deserta. Saiba mais sobre o projeto aqui.

Leia a nossa impressão de leitura referente ao primeiro mês do Projeto. A metamorfose, Kafka;

Leia a nossa impressão de leitura referente ao segundo mês do Projeto. Quincas Borba, Machado de Assis;

Leia a nossa impressão de leitura referente ao terceiro mês do Projeto: As Reinações de Narizinho, Monteiro Lobato.

Leia a nossa impressão de leitura referente ao quarto mês do projeto: Madame Bovary, Gustave Flaubert

E saiba mais sobre o livro que inspirou o projeto Ilha Deserta aqui.

 

Projeto Ilha Deserta: Madame Bovary, Gustave Flaubert

- Projeto ilha deserta

Ouvi tantas histórias intrigantes sobre os bastidores da feitura de “Madame de Bovary” que não resisti a fazer da leitura uma espécie de encontro com Flaubert. Pelos fiapos aqui e acolá do que fui descobrindo do escritor nas incursões pré-leitura que fiz, suspeitava que penetrar o intricado interior do universo dos Bovary seria como ter um vislumbre de corpo inteiro do escritor. Como se, esquadrinhando as escolhas do autor, eu pudesse alcançar, claro que em minúscula medida, os recantos de sua alma.

E então…

Flaubert, que escritor! A escrita o revela em seu método a privilegiar sobretudo a arte de escrever um romance. Igualmente reveladora é a renúncia ao entusiasmo artístico em benefício da própria narrativa. Isso é para poucos. Uma das coisas mais interessantes que aprendi sobre ele é que, em contracorrente à mitificação da inspiração criativa, Flaubert é antes de tudo do fazer operário. Que coisa linda isso! Pelo que, também por isso, pude notar o seu esforço tangendo visível em cada linha da narrativa como que a provar que o trabalho existe para confirmar o estilo.

E ponha trabalho nisso! Escrever Madame Bovary foi um percurso de anos difíceis. Cinco anos até dar a obra por concluída. Cinco anos que estão no âmago da energia que as páginas descortinam, a saber: a resistência em não desistir a despeito dos limites, interdições e insuficiências.

“Estou mais cansado do que se empurrasse montanhas. Há momentos em que tenho vontade de chorar. É preciso uma vontade sobre-humana para escrever e eu sou apenas um homem”. (Gustave Flaubert quando do processo de criação de “Madame Bovary”)

É esse o espírito que veste a narrativa. E o resultado é uma obra bem meditada e madura que parte de uma situação particular para conjurar um universo de temas intrinsecamente ligadas à problemática da existência humana.

Emma Bovary é um mundo à parte, um universo de desejos o qual nos diz muito respeito. É ela própria a síntese dos muitos desejos. Acho genial e perfeita a tradução do perfil psicológico da personagem. Uma bela mulher, dona de casa, frustrada, insensível, infeliz, destituída de empatia, temerária, impulsiva, entre tantos adjetivos que a ela se ligam de forma convincente ainda que alguns desses muito nos irritem. Emma é um alguém viciado em emoções fortuitas. A serviço do seu ego, é incapaz de fazer uso do livre arbítrio visto que o oposto da liberdade é a compulsão.

No caso de Emma,  satisfazer o desejo significava o banimento da realidade. Como leitora assídua e ingênua dos romances, a personagem mergulhava fundo no escapismo sem conseguir sair de lá, tornando as histórias as substitutas da vida. Emma não mais conseguia viver sem exagerar o filtro da divagação mental em que criava um mundo onde pudesse ser quem desejava ser, onde pudesse viver aventuras tais como as contadas nas histórias que lia, onde pudesse amar e ser amada tal como as suas heroínas ficcionais.

E, assim, vivia, Ás apalpadelas; atrás de sensações externas para satisfazer seus anseios mais íntimos, tendo por recompensa a prisão de andar em círculos, no labirinto oco e vazio de si mesma. Que vida! Que carga pesada de se levar!

Cá de mim, fiquei a pensar na cota de felicidades escapistas pelas quais ansiamos a vida inteira.  Em maior ou menor medida, qual a porção de bovarismo que nos cabe? O realismo de Flaubert não me deixa mentir. Ele que não foi nenhum profeta, mas um grande observador do comportamento humano, apresenta um elenco de comportamentos que define bem a sociedade atual. Hoje afastar-se de si mesmo em prol do culto ao autoengano é a regra. Que proveito há nisso?

Enfim, é comovedora e digna de lamento a ruína de Emma Bovary exposta aos pouquinho ao leitor. Que tortura, meus caros! É assustadora a forma vampírica com que Emma se aproxima do objeto de interesse sem comprometer-se com a contrapartida. Porém, lamentei muito a sua perda por jamais ter entendido a vida, por ter-se tornado vítima e algoz de si mesma, por não ter tido sequer boas ações das quais pudesse colher os dividendos.

Mas, Emma é o que é: uma boba que à luz de sua trágica vida nos ensina muito acerca do demasiadamente humano.

Madame Bovary é um livro ao qual quero retornar em outra oportunidade, pois o que se pode dele extrair não se esgota em uma única leitura. Não é história para se ver da sacada, minha gente. É livro que se lê olhando pra dentro, pois fala muito do que é conhecido em nós.

E assim dou por concluída essa etapa do projeto “Ilha deserta” que, nesse mês, sofreu um atraso considerável em razão de motivos de saúde que me impediram de cumprir com a agenda de postagem. Mas, tá resolvido. Post entregue. Sigamos!

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