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Projeto ilha deserta

Projeto Ilha Deserta: As reinações de Narizinho, Monteiro Lobato

- Livros, Projeto ilha deserta

Quanto tempo, não é mesmo pessoal? Chego aqui ao lado de uma turma para lá de entusiasmada que me fizeram companhia ao longo dos últimos dias aqui na ilha. Foram momentos agradáveis de boas risadas, recordações tão queridas. Pude rememorar uma fase boa da vida: a minha infância.

Quando essa música aqui ó era entoada por Gilberto Gil, todas as manhãs, o mundo parava para mim durante o período em que o episódio era transmitido. Eu fazia parte daquilo. Simples assim.

Confesso. Conheci essa turma do Sítio do Picapau Amarelo pela televisão. Não havia lido, na época, as aventuras escritas por Monteiro Lobato. No entanto, os personagens me são tão íntimos, tão familiares que já os tenho como verdadeiros amigos. E, somente agora, na fase adulta,  pego o livro para ler.  Vai saber! A vida tem dessas coisas. E clássico que é clássico merece ser lido a qualquer momento, a qualquer hora, é atemporal. E talvez, mais madura, tenha percebido aspectos da obra de Lobato em que não me atentava quando criança.

Naquela época importava apenas assistir as aventuras de Narizinho, Pedrinho, Emília, Visconde de Sabugosa, Dona Benta, Tia Anastácia e todos os demais habitantes do Sítio do Pica Pau Amarelo sem muitas análises filosóficas e sociológicas sobre a obra em questão. E, chego a conclusão, que assim devo lê-la. Pelo simples e puro prazer de me encantar por uma narrativa rica em elementos que deram um novo sentido à literatura infantil. Apenas isso.

Ainda assim, chama-me atenção, a  clara crítica de Lobato à sociedade da época. Em um diálogo da abelha com Narizinho faz a seguinte comparação entre o reino dos homens e o das abelhas:

“Uma verdadeira maravilha de ordem, economia e inteligência! (…) O que admiro é como as abelhas sabem aproveitar tudo de modo que a colmeia funcione como se fosse um relógio. Ah, se no nosso reino também fosse assim. Aqui não há pobres nem ricos.”

A abelha responde o seguinte: “Olhe, menina, lá no reino dos homens costumam falar muito em felicidade, mas fique certa de que felicidade só aqui. Cada uma de nós é feliz porque todas somos felizes. Lá não sei como pode alguém ser feliz sabendo que há tantos infelizes em redor de si.”

Precisa falar mais alguma coisa a respeito? Fiquemos com o diálogo, pois ele é atual e tão direto, dado o contexto que vivemos, que não necessita discorrer sobre isso.

Lendo as curtas histórias que compõem a obra, associei-as a vários episódios exibidos na televisão. Lobato exerce ainda hoje esse encantamento. Embora as crianças hoje tenham estímulos tecnológicos diversos, o mundo infantil retratado por ele ainda se faz presente nas brincadeiras inocentes e saudáveis. Criança de Lobato sonha com mundos encantados, vive aventuras diversas, gosta de ouvir histórias contadas pelos mais velhos, sobe em árvore para comer jabuticaba, brinca com a bicharada, come os mais deliciosos quitutes, dá vida ao inanimado, imagina, briga, separa, brinca, briga e separa de novo e brinca tudo novamente.

Não há como negar, o post é saudosista, sim. Destaco aqui a minha personagem preferida: Emília sempre foi, de todos os personagens, a que mais me encantou. Eu queria ser a Emília, a espevitada, a encrenqueira, a questionadora.

O próprio Lobato assim a definia:

“A irreflexão é a principal marca da boneca mais famosa da Literatura Brasileira. Suas “asneiras” dão-lhe encanto próprio, graça que fizeram-na deixar o papel a que estava destinada, como personagem secundária, para ser uma das principais – a principal, ao menos para os leitores, curiosos para saber o quê ela irá aprontar. — Monteiro Lobato

“Emília começou uma ridicula, feia boneca de pano, dessas que nas quitandas do interior custavam 200 réis. Mas rapidamente evoluiu, e evoluiu cabritamente – cabritinho novo – aos pinotes. E foi adquirindo tanta independência que, não sei em que livro, quando lhe perguntam: ‘Mas que você é, afinal de contas, Emília:’ ela respondeu de queixinho empinado: ‘Sou a Independência ou Morte.’ E é. Tão independente que nem eu, seu pai, consigo dominá-la.” — Monteiro Lobato

Minha predileção por ela era tanta que minha mãe comprou uma Emília para mim, na época fabricada pela Estrela. Desse jeitim aí. Essa boneca foi minha companheira de infância. E eu, me sentia a própria Narizinho.

Ler Reinações de Narizinho é saber que se precisa de pouco para ser uma criança feliz. É cercar-se da família, de amigos reais e imaginários (criança tem amigos imaginários). É mudar as históricas clássicas da Dona Carochinha e fazer parte delas, brincando com os personagens dos contos de fadas. É casar-se com o príncipe do Reino das Águas Claras, é ter uma boneca falante e espevitada, um sabugo de milho que é uma enciclopédia ambulante, um porco que apesar do título pomposo de Marquês de Rabicó é medroso e comilão, um primo corajoso chamado Pedrinho que topa todas as aventuras.

Enfim, a obra abre asas para imaginação sem limites. E quer seja criança ou adulto, às vezes, precisamos voar para o Sítio do Picapau Amarelo e sonhar com um mundo de fantasias.

Até o próximo encontro em nossa ilha.

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Essa leitura integra o desafio literário Projeto Ilha Deserta. Saiba mais sobre o projeto aqui.

Leia a nossa impressão de leitura referente ao primeiro mês do Projeto. A metamorfose, Kafka;

Leia a nossa impressão de leitura referente ao segundo mês do Projeto. Quincas Borba, Machado de Assis;

Leia a nossa impressão de leitura referente ao quarto mês do Projeto: Madame Bovary, Gustave Flaubert

E saiba mais sobre o livro que inspirou o projeto Ilha Deserta aqui.

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Projeto Ilha Deserta: Quincas Borba, Machado de Assis

- Livros, Projeto ilha deserta

capa-ilha-desertaSegundo mês na ilha, e por aqui, os ventos não estão favoráveis. Após a leitura de Quincas Borba, densas nuvens pesam sobre minha cabeça. A sensação pós-leitura não foi nada boa. Imagine! Estou aqui a curtir meu paraíso particular, e de repente o livro expulsa de mim a alegria do passatempo. Falando em Paraíso, só consigo pensar na primeira noite de Adão e Eva quando tiveram que confrontar com a escuridão nunca antes vista, nunca antes vivida. Mal consigo dimensionar a angústia que ambos experimentaram. E isso também me deixa muito triste. Contudo, me lembro de que, até nesse episódio, o qual atribuo como sendo a maior tragédia da humanidade, há a esperança e o triunfo do bem. Como então conceber que em “Quincas Borba” haja a desesperança como realidade única e inexorável?

O mais curioso é que o título Quincas Borba, por razões pessoais, remetia-me à alegria.  A título de gracejo, costumava chamar Eliaquim, o meu irmão caçula, Quincas Borba. Quando penso em Quincas, penso em meu irmão. Penso em coisas boas. Não esperava encontrar tanto pessimismo nas linhas escritas por Machado.

Diante dessa afirmação, confirma-se a minha completa nulidade em assuntos machadianos. Li Memórias Póstumas de Brás Cubas na infância, com o fim de cumprir ritos escolares cujos prazos de entrega eram bem apertados. Lamentável a leitura feita dessa maneira, e o resultado disso é que me lembro de pouquíssima coisa do conteúdo e do estilo do autor. A lembrança que permanece é a do quanto a leitura corria fluida do inicio ao fim. Dessa vez, não foi diferente, mas…

Quem leu sobre o propósito desse desafio literário, sabe que a escolha dos livros pautou-se nas indicações dos autores partícipes da coletânea “Ilha Deserta: Livros”. Se a lista contemplasse a minha própria escolha, hesitaria em levar obras cuja história desvelasse o desencanto. Creio que uma ilha deserta, mesmo que em um exercício imaginário, não seja o lugar mais indicado para me cercar do pessimismo.

Na maior parte das vezes, peguei-me a ler o livro ora admirada, ora confusa, porém, nunca indiferente.  No entanto, não houve concordância de alma, pois a minha leitura de realidade difere da cosmovisão machadiana a transformar gestos genuínos de bondade e generosidade em atos  infrutíferos e a reduzir a carreira do homem a um fim de loucura, indiferença e egoísmo.

Ao término da leitura, Rubião e sua triste condição deixou-me com um travo amargo na boca. Dona Fernanda foi um desafogo, pena que de passagem vã, uma vez que, na trama, a generosidade é de pouco impacto. Daí a razão do meu desacordo com o teor da narrativa. Não obstante a intenção realista presente na obra,  persiste em mim a convicção de que, embora o mal jaza à porta, o bem não é uma ciência tão difícil de ser posta em prática como supõe o narrador.

Tha’s all.

Daqui da ilha, sigo a descobrir a literatura. Até mais.

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Veja como foi o primeiro mês do Projeto aqui.

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Projeto Ilha Deserta: A metamorfose, Kafka

- Livros, Projeto ilha deserta

a-metamorfose1Hoje completa o primeiro mês desta náufraga aqui na ilha deserta e confesso que a experiência começou bem turbulenta. Talvez pela  companhia  que levei comigo, afinal foge totalmente aos padrões convencionais de normalidade a que estou habituada.

Kafka teria me pregado uma peça? Apresentou-me, o até então desconhecido para mim, Gregor Samsa, sem ao menos me precaver do que estaria por vir! Não tinha uma companhia menos asquerosa, não? Poxa vida! Pensei que iniciaria uma temporada tranquila, mais relax na ilha.

Logo de início, sem nenhum aviso prévio, ou melhor, na primeira página, o cara se transforma do nada, em um inseto. Logo eu que tenho nojo e medo do bicho, que imagino eu, ele tenha se transformado.

A ideia do personagem central da trama, aquele tipo comum, caiu por terra. Eis que me vejo diante de um ser descontruído pela mente brilhante de um autor que não se contentou em oferecer mais do mesmo. E me pergunto como Kafka conseguiu inventar uma criatura tão estranha e envolvente  ao mesmo tempo?

Sim, porque me esqueci do local paradisíaco em que me encontrava e mergulhei na breve história de Samsa. E foi um soco no estômago. Kafka expõe sem dó a miserável condição humana. E joga na cara o quão mesquinhas nossas atitudes podem ser e o quanto  elas nos revelam sobre nós mesmos. E aviso:  isso pode doer.

E com toda sua sagacidade, Kafka tocou a ferida e me fez engolir a figura de um homem-inseto como o personagem principal com o qual teria de conviver durante toda a história. E qual a finalidade de tudo isso, indaguei a mim mesma.  Expor as  mazelas que nos esforçamos para esconder, tal qual o fez a família de Samsa. Empurramos e trancamos para dentro do quarto tudo o que é feio, que pode espantar quem chega perto.  Queremos a casa “arrumada” para recebermos as visitas, e darmos curso as nossas vidas com um sorriso nos lábios. E assim, esquecer que naquele quarto mora algo que está escondido e que revela o que de pior somos.

A história desse homem me transportou para uma realidade que presencio todos os dias a caminho do trabalho. Me deparo com tantos Samsas por aí.  Embaixo dos prédios do setor comercial em que trabalho existe um submundo onde habitam, por incrível que pareça, pessoas as quais não queremos ver, mas que estão ali para nos mostrar o quanto somos hipócritas. São mendigos, drogados, prostitutas que residem nos becos escuros e sujos  e que de tão “habitual” já fazem parte do cenário.

E me espanto quando um ou outro surge para me assustar e amedrontar. É melhor para todos que estejam escondidos, comendo restos de comidas e sobrevivendo da forma como puderem, desde que bem longe dos humanos, como o personagem da trama kafkaniana. Enquanto escrevia esse texto, de súbito, me veio à mente a figura de um senhor que por entre nós transita, todos os dias, envolvido em um saco de lixo. Essa é  sua vestimenta. O que ela me revela? A sua figura é emblemática, e como não tenho como não compará-la a de Samsa, inseto asqueroso? Temos a tendência  de ignorar aquilo que nos enoja e nos causa horror. De longe, não se parece com uma figura humana, mas se chego perto me deparo com um homem, com sentimentos e emoções, simplesmente debilitado e enfraquecido pelas condições da vida e por minha falta de compaixão.

Kafka consegue fazer com que me compadeça por aquele inseto que antes achava tão repugnante.  Todo o mal estar em relação aquela criatura  havia se esvaído e, por muitas vezes, meu coração se apertava com o seu sofrimento. E o meu asco já não era dirigido para ele, mas para sua família. Por vezes, me peguei sentido náuseas diante da  forma como eles o tratavam.

Encerro esse breve relato dizendo que Kafka e Samsa foram ótimas companhias para mim na ilha deserta. E, Kafka, você não é tão louco assim. Enxergou aquilo que, por vezes, me recuso a enxergar.  E, como um bom contador de histórias, nos mostra em forma de um breve conto, o quão cruéis podemos ser.

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OBS: Mês que vem tem mais. A outra náufraga, Vivi Lima, relatará as suas experiências com ninguém mais, ninguém menos que Quincas Borbas. Quer participar conosco desta aventura? Então, é só acessar esse link.

Essa leitura integra o desafio literário Projeto Ilha Deserta. Saiba mais sobre o projeto aqui.

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Leia a nossa impressão de leitura referente ao terceiro mês do Projeto: As Reinações de Narizinho, Monteiro Lobato.

Leia a nossa impressão de leitura referente ao quarto mês do Projeto: Madame Bovary, Gustave Flaubert

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