De volta aos clássicos: O Chalé de Moorland, Elizabeth Gaskell

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É tão bom quando uma história é capaz de trazer a beleza que os nossos olhos contemplam, de trazer à consciência as coisas esquecidas dentro da gente. Bastou o primeiro parágrafo para imaginar que Gaskell deve ter conhecido bem a fonte onde coletar o olhar de espanto, carinho e admiração para a vida que ocorre todos dias. E o resultado disso é a beleza pura e simples.

O Chalé de Moorland é um conto de aprendizagem em que a vida de uma humilde família é vista de perto, para além do que mostram as aparências. É assim que tomamos conhecimento da predileção de uma mãe, Mrs. Browne, pelo filho mais velho em detrimento da filha. A filha é Maggie Browne, personagem cujas características irei me deter ao longo do post. O filho é Edward Browne, um irresponsável egocêntrico, destituído de escrúpulos. Quando passa a frequentar a casa dos Buxton, uma família nobre e rica, Maggie descobre o amor. A partir de então, os Browne terão de lidar com os novos rumos suscitados em suas vidas

Assim que comecei a ler O Chalé de Moorland, a minha mente deu um salto em direção ao que sabia de origem: a nossa existência pode ser sim de primeira grandeza. Veja Maggie Browne, a protagonista do conto. Em um mundo em que os discursos sobre bondade convergem exclusivamente para o sentir-se bem consigo mesmo, surge Maggie Browne e muda tudo de figura com a sua bondade nua e crua, desinteressada e raras vezes vista no senso comum. A vida de Maggie segue na contramão dos que dizem achar a bondade chata e de pobre experiência.

O livro fez-me ver o contrário. Mais desafiador do que qualquer vilania é a bondade instintiva e ignorante de si mesma e dos perigos à espreita. Aprendi um tanto com Maggie. Tão bondosa a despeito de si mesma, de suas vontades, de sua própria felicidade e com o coração aberto até quando diante da morte.

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Há quem sinta pena de Maggie quando, na verdade, dignos de dó são a Mrs Browne e seu filho Edward, ambos pobres de espírito. Revoltante a forma com que tratavam a nossa protagonista, a diminuindo o tempo todo. E ainda assim, lá vinha Maggie com mais uma preciosa lição que não saberei expressar tão bem em palavras quanto o filósofo Henri Fréderic Amiel o fez: “Respeitar em cada homem o homem, se não for aquele que é, pelo menos o que ele poderia ser, o que ele deveria ser”. Como não dar crédito à Gaskell por não os destituir de sua própria humanidade?

Como não amar Maggie Browne? Que o diga Frank Buxton. Nessa relação amorosa, mais uma vez, Maggie demonstra a nobreza, a coragem, a constância e o espírito firme. Enquanto ele, ingenuamente, deseja viver um idílio utópico para fugir dos problemas, ela não procura desvios ou desculpas. Maggie é inteira, não aceita perder parte de si pelo caminho. A realidade, por mais que doa, deve ser enfrentada. Face a um mundo extremamente autoindulgente, o que mais posso dizer? Essa menina, com as suas luzes, é à frente de qualquer tempo.

Por tudo isso e pelo que não consegui dizer, “O Chalé de Moorland” é o verde germinando nos montes. E Elizabeth Gaskell, uma exímia intérprete das imagens. Eu, que a conhecia só de ouvir dizer, testemunhei o bem pavimentado caminho das palavras indo dar em um mundo honesto, prosaico e real. Admirei a dedicação em mostrar os modos de pensar e viver tão simples, e por isso mesmo, tão carregados de significado. Pude notar igual consideração na voz do narrador que, tal qual um cicerone entusiasmado, nos guia pelo o campo e pelas colinas, de tal maneira a criar em nossas mentes e corações uma pintura das estações em movimento. Tudo isso combinado fez do conto um passeio perfeito, do tipo que apanha a hora que passa e que, apesar do poente, teima em prosseguir, sem hora para voltar.

 

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(…) Não faz sentido pensar que vamos sair pelo mundo colhendo e escolhendo homens e mulheres em busca do que é melhor, como se fossem frutas; como se não houvesse algo em nossos próprios corações que, se ouvíssemos conscientemente, prontamente anunciaria quando houvéssemos encontrado aquela pessoa única dentre todas as outras.

Elizabeth Gaskell, Pedrazul Editora, 179 páginas.

 

 

 

 

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1. Veja bem: O livro “O Chalé de Moorland” traz ainda outro conto. Lizzie Leigh. A história é pequeninha, mas muito tocante. Fala do amor de uma mãe em plena ação. Nem as convenções morais e as consequências de contradizê-las a impedirão de resgatar uma filha considerada perdida por ter tido um filho fora do casamento. Triste e doce ao mesmo tempo.

2. À flor da pele: Descobri um xodó literário com grande possibilidade de continuar a sê-lo por toda vida. Estou falando da Pedrazul editora. O que é isso senão o paraíso dos romances clássicos? Acessar o site da editora é coisa séria, é preciso banir a pressa para aproveitar as sinopses e perder-se na beleza das capas.

3. Mete o nariz: Desculpe a ignorância, mas quando vi que na casa do Sr. Buxton havia “grandes vasos de curiosa porcelana preenchidos com pot-pourri”, quis saber o que era isso. Fui salva pela nota de rodapé. Pot-pourri é uma mistura de flores secas e especiarias para perfumar o ar. Agora que associei o nome ao objeto, segue um tutorial bacana sobre como fazer pot-pourri de flores secas.
4. Toda ouvidos: Linda a demonstração de carinho e consideração da parte da Pedrazul editora. As edições clássicas são dedicadas a um leitor em especial. Segundo a editora, existem critérios para receber tal homenagem, a saber: a fidelidade em todas as edições já publicadas, e amor incondicional ao livro. Não bastasse tudo isso, as encomendas vêm carregadas de marcadores de páginas lindos de viver. (vide a 2ª figura desse post)
5. É de dar gosto: Eu não sei se essa é a receita do biscoito de gengibre que o Mr. Buxton queria tanto que a Maggie aprendesse, só sei que a receita é de uma simplicidade talhada para a minha pouca aptidão culinária.

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