Em série: Descendants of the sun

- Em série

Doramas.

Não sabemos bem o que são, como vivem e o que fazem.

Mesmo assim, sem bússola nem roteiro, resolvemos adentrar esse universo quando fizemos de uma série coreana a rotina de nossos domingos.

Embora a série não estivesse em nosso itinerário, não demorou muito para que conquistasse a nossa atenção.

E o que as tardezinhas dos últimos domingos nos traziam?  Descendants of The Sun.

Descendants of the sun conta a história de amor entre Yoo Si Jin,  capitão da Unidade de forças especiais da Coreia do Sul, e Kang Mo Yeon, médica do setor de emergência de um grande hospital.

A partir do primeiro encontro é dado o conflito que bate com toques de medinho e ansiedade no coração da bela doutora Kang: dá para apostar em uma relação com um cara cujo trabalho  o coloca em situações de risco à vida?

E assim vão os nossos olhinhos a acompanhar a figura do chove e não molha do “namoro ou não namoro” a surgir com muita recorrência durante mais da metade da série.

À medida que a trama vai tomando corpo e altura, acentua-se ainda mais a linha tênue entre o sentimento e a razão quando o destino os coloca próximos um do outro em Urk, território fictício em guerra. Ele como soldado e ela como médica voluntária a compor as forças de manutenção da paz e segurança da ONU .

Nesse cenário inóspito, ambos têm a oportunidade de se conhecerem melhor e, com o convívio, passam a nutrir admiração e respeito um pelo outro,  e o interesse físico fica cada vez mais aparente.

E o dilema também. Desistir de amar alguém em função da expectativa de que um futuro trágico possa acontecer ou  concentrar energia no factível, seguir o curso do hoje e partir pro abraço?

Eu entendo o lado da doutora Kang. As suas ponderações antes de entrar de cabeça em uma relação vão ao encontro do que penso sobre namoros. Também gosto da ideia, para muitos antiquada, do cortejo. Um homem e uma mulher só devem assumir um namoro se estão compromissados em desenvolver uma relação que seja pra valer. É questão de honra e dignidade viver um relacionamento verdadeiro e duradouro com o escolhido ou a escolhida. Se o pretendente não se encaixa nesse padrão, nada feito. Isso se chama preservação da alma.

O romantismo está presente, porém bem distante do clima sentimental ao extremo em que basta haver paixão para que, em seu nome, se adquira a chancela para cometer atos de insanidade. O romance conforma-se ao atos de bravura e heroísmo, atos altruístas em que ambos os personagens se revezam com muita belezura e elegância.

O compromisso tanto da parte dos médicos quanto da parte dos soldados é com os princípios da honra, do dever e da lealdade à pátria. Nesses momentos, reclama-se uma pausa no romance para, entre outras missões, livrar o mundo de um vilão traficante de armas e explorador de menores e enfrentar um surto de uma doença viral espalhando-se pelo quartel.

Entre o dever e a paixão, a história destaca a eternidade do hoje e o seu caráter viável. Do futuro nada se sabe exceto que ele se desdobra nas realidades as mais variadas. Sendo, portanto, melhor assumir que é de coragem que se vive e  encarar o que vier, desde que se saiba em que terreno se está a pisar. Com uma forçadinha do roteiro, a coragem é repetidamente requerida para fazer frente aos momentos dramáticos a demandar dos personagens força diante do perigo.

Por fim, há mensagens significativas que fui colhendo ao longo de cada episódio, entre as quais a de que mesmo parado nunca se está de fato. Se você não se movimenta, a inércia é preenchida com acontecimentos jamais esperados. E se você planeja, é preciso antecipar, para além dos ventos favoráveis, a possibilidade de desvios no meio do caminho. Seja o que for, cabe-nos sabiamente tomar posição, corrigir os erros de escolha, os erros de cálculo e seguir em frente.
And the end.

Caro leitor, nós sabemos. Esse não é um tema palpitante. Nós já vimos esse filme zilhões de vezes, não é mesmo?

Mas, veja só. Com a gente aconteceu o seguinte:

A forma com que a história foi apresentada conquistou-nos a cada episódio. E o carisma dos atores e atrizes foi um peso a favor, um elenco espirituoso, travesso, a jorrar uma alegria  de criança de forma contagiante.

É certo que a série tem uma estreita conexão com o apelo emocional. Para quem anda evitando fortes abalos emocionais vale ressaltar que, de outra parte, a série é bem dosada com um toque divertido de humor e de cenas absurdas de ação.

Mais para o finalzinho, senti um medinho de ter que lidar com situações cujo impacto equivalesse a tristeza com anabolizantes. Não vou falar mais nada, assista.

Também não dá para fazer vistas grossa ao fim propagandístico do drama. O contexto geopolítico é bem evidente, demonstrando que não se trata apenas de uma simples de história de amor. Além de explorar o conflito entre Coréia do Norte e a do Sul, há um forte direcionamento à cultura islâmica e ao Oriente médio. Dizem que os dramas coreanos fazem sucesso por lá. Mas sabemos que há mais que entretenimento em jogo nessa história.

A política antes de tudo.

1. Veja bem: A Urk de Descendants of the Sun não tem nada a ver com a Urk real que, por sua vez, fica na Holanda. Mas na série, onde se vê Urk, na verdade se vê a Grécia. Desde então, a  “Urk grega” tem recebido uma onda de turistas chineses e coreanos loucos para tirar uma fotinha de um velho navio fincado na areia. O motivo? Ele serviu de cenário para os passeios românticos de  Yoo Si Jin  e Kang Mo Yeon.

2. Toda ouvidos: A trilha sonora é um show. De algum modo, lembrou-me um pouco da vibração da música latina. A título de comprovar o que disse, aqui segue uma palhinha de uma música bastante tocada durante a série: Talk Love, do cantor K.Will.   Vale a pena ouvir a trilha sonora completa no Spotify.

3. Mete o nariz: O chove e não molha não se restringe ao casal de protagonistas. Não há dúvidas de que Seo Dae-Young e Yoon Myeong-Joo fazem um belo par, com uma relação bem mais complexa e com conflitos mais interessantes do que o casal principal e, por isso, mais bonita. Torci muito por eles. Ah, vou dizer. É o meu casal preferido da série. Aquele “beijo” através da janela de uma cafeteria é de arrancar suspiros.

4. À flor da pele: Eu demorei a me acostumar com a despedida dos personagens. São carismáticos em alto nível. Para matar a saudade, criei um painel só de fanarts no pinterest.

5. É de dar gosto: Pessoal, diga aí: será que todos os doramas se desenrolam com base na mesma pegada do que vimos? Se assim for, anunciamos que, desde já e até segunda ordem, a temporada de caça aos doramas começou. Olhando o acervo da netflix, mal sabemos por onde começar.

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