Em série: Stranger Things e a minha década particular

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stranger things titlesPara falar da série do momento, parto de minha infância e adolescência, pois não consigo fazer diferente. Os anos 80, período em que transcorre a trama de Stranger Things, contam a história da menina que fui. Povoada de brincadeiras, de livros, desenhos animados e às voltas com o dial do walkman. Quando se trata da referida década, sinto-me um pouco desconfortável com o que minha memória exclusivista é capaz de produzir. Não sei como se dá, mas acontece um salto abissal das minhas vivências mais relevantes para o contexto musical, televisivo e cinematográfico da época. Quando o tema é anos 80, não dá outra. Costumo esquecer-me de que brinquei muito na rua e que, a exemplo da turminha de Stranger Things, desfrutei demais das divertidas brincadeiras de exploração. Acho pobre que as minhas lembranças demonstrem mais intimidade com o que eu via na televisão e cinema e ouvia nos rádios. Mas, em termos de cultura de entretenimento, os anos 80 foram um bombardeio de informação de modelos de comportamento e pensamento. E eu não passei imune a tudo isso.

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Diante do revival seriado, sinto a familiaridade com que reencontro no mundo cultural da época. As referências estão lá no modo colcha de retalhos, é verdade, mas não acidentalmente. Tudo está ali para dar ênfase à atmosfera oitentista e alcançar, no coração dos telespectadores que a viveram, uma boa dose de correspondência afetiva. Nesse sentido, Stranger Things representa para mim um acerto com o passado. Ao contrário do que eu pensava, eu não vi e ouvi mais do que vivi, experimentei e brinquei. Confesso que muitas das relíquias apresentadas na série me passaram batido. A minha identificação tende mais para o clima evocado. As marcas apontadas ao longo da narrativa aprendi agora, lendo os comentários da galera que se liga em tudo e em mais um pouco.

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Por exemplo, E.T. Quando do lançamento, enquanto os vizinhos corriam para as filas de cinema para assistir às peripécias do bichinho esquisito, eu e meus irmãos brincávamos — que delícia! — de pique-pega no quintal. Até hoje nunca assisti ao lendário filme dos anos 80. Se por tabela contasse, acredito que o tenha “visto” umas centenas de vezes, vá lá.  Afinal, estou falando de um produto que se consagrou de forma permanente no imaginário popular. Vai me dizer que nunca experimentou a sensação de ter visto algo por tabela? Comigo foi assim. Só que não o suficiente para captar as tão faladas referências. Quanto a isso, tive que me valer da ajuda dos entendidos. Não fosse Stranger Things,  eu morreria sem saber que o E.T já usou vestidinho e peruca loura.eleven-dustin-e-mike-em-cena-de-stranger-things-1469547116770_820x430

O longa Conta Comigo — esse eu assisti! — respalda o clima de amizade das crianças de Stranger Things. Mas não me lembro de muita coisa, não. De quando assisti, está nítida a lembrança da música tema do filme “Stand by me” e, claro, a temática do bullying recorrente nos filmes infanto-juvenis da época. Com Stranger Things não é diferente. Comigo também não foi. As agruras de Mike e cia diante da perseguição gratuita de uma turminha encrenqueira e maldosa também faz parte do meu repertório de vivências. Na minha vez, encontrei recursos em mim mesma para resolver a questão e seguir adiante quintaneando. Afinal, eu passarinho. Hoje em dia, não. As crianças vivem o puro instinto da reatividade. Ou matam, ou se matam. Hoje em dia? Qual o quê! Para a minha total perplexidade, Stranger Things apresenta uma cena forte em que a ocorrência do bullying foge perigosamente ao controle. A menina que fui achou aquilo muito exagerado. Olhar de infância, claro. Pois  a maldade é a mesma tanto antes quanto agora. E infelizmente, os noticiários e o Youtube têm várias histórias fatídicas de bullying para contar. Só resta esperar que, em Stranger Things e no mundo real, a turminha perseguida resista bravamente às provocações que vierem pela frente.

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Conheci uma Winona Ryder mais jovem e, olha, não foi um encontro amigável. Aborrecia-me o fato de ela ser a namoradinha de Johnny Depp na época. Mas, diante do caos que a sua vida se tornou durante um bom tempo, passei a vê-la com mais compaixão. Em Stranger Things, não tive como negar-lhe cordialidade. Coitada…sofreu tanto.

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Nessa época desenvolvi um gosto adquirido por filmes adolescentes. A garota de rosa-shocking, Curtindo a vida adoidado, Alguém muito especial…aliás, como seria assisti-los novamente? Allien, Poltergeist, nem pensar. O mais perto que me aproximei do sobrenatural foi com A hora do pesadelo. Depois desse, só Ghost. Mas, esse último é dos anos 90, né? Nos anos 80, gostava mesmo era de Top Gun. Sou adepta assumida das histórias de gente como a gente. Exceção mesmo faço para a Eleven que é uma fofa e, mesmo com poderes sobrenaturais, é humana.

Mas, os anos 80 nos trouxeram muitos monstros e coisas estranhas acontecendo o tempo todo. Hiperinflação, congelamento de preços e salários, fiscais do Sarney…em uma única palavra: medo. Crianças, o mundo invertido não é páreo para o que foi o governo Sarney. E quem não morria de medo da guerra fria? Episódio tenso e assustador.

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A trilha sonora depõe contra mim. Tirando Toto e Foreigner, algumas das canções passaram por mim tão ligeiramente que, a título de lembrança, produzem apenas uma coceirazinha nos meus ouvidos que, por sua vez, ficaram entregues ao pop por um bom tempo. Desde então, o pop foi progressivamente perdendo a minha atenção. O pop não poupou nem a si mesmo.

Por fim, pelo que deduzo, não vivi os anos 80 à luz das referências de Stranger Things. E o que isso significa? Nada. Do que foi apresentado, posso dar um jeito de recuperar, pois facilidades não faltam para que tal aconteça. Não sei se há tempo e disposição para tanto. Mas há a questão: minhas memórias acolheriam esse passado enxertado, ou tais referências viveriam sob a penumbra das memórias inventadas? A se pensar.

Mas, a série, ah, é muito legal sim. De quebra, ajudou-me a reparar um desvio de memória. Enquanto se criava a mitologia oitentista, muita coisa eu perdi porque andava por aí, fora do circuito dos antenados. Fazendo batalha de livros, catando minhoca em terra molhada, declarando guerra de ovos podres contra as crianças que moravam do lado “errado” do condomínio, dançando e cantando aos berros músicas de qualquer estação na casa de minha amiguinha de infância, participando de corais… e criando a minha década particular.

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