O ano novo que celebro, com as forças da minha alma, já passou. Aconteceu há três meses. Contudo, diferentemente do que acontece no natal, não consigo ignorar o ano novo gregoriano. A celebração ainda me leva para um estado afetivo que, não sendo de oba-oba, comporta a necessidade de fazer nascer em mim o melhor, sobretudo a esperança. 

Não vou me fixar em números. No antes e no depois. No ano que passou e no que virá. Não quero recair na vã tentativa de confinar o tempo na dimensão limitada do que consigo perceber. Não quero contar o tempo em termos numéricos.  

Quero contá-lo como quem narra uma boa história; como se o tempo e eu fizéssemos parte de um mesmo acordo, uma aliança renovada no desenredar das tramas que compõem a vida, com os seus movimentos e suas relações, os envolvimentos e as experiências vividas para que se me amplie a visão; para que eu possa, com mais clareza, atribuir-lhes um significado maior.  

Isso é o que se chama vivência, não? 

Quero contar o tempo como quem participa ativamente da criação de sua própria história, sem vitimismos, mas aceitando as adversidades, comuns a todo ser humano, como algo inexorável a ser vivido, enfrentado e superado. As interdições fazem parte do processo de aprimoramento. E não há nada a temer nesse processo. 

Sendo assim, que a passagem de ano seja um abrir de portas e janelas e não um mero registro a ser deixado para trás ou a aposta vazia em um futuro desconhecido.  

Voltar no tempo só com arrependimento a fazer as vezes de máquina do tempo, para restaurar o que vem a seguir.  Principalmente, no que toca a alma, há conserto.  Há esperança, ainda que as consequências de nossos erros permaneçam para nos lembrar de que temos responsabilidade por todos e quaisquer atos. 

Por fim, resta um conselho.  

Melhor preparação para o futuro não há: oferecer o que tenho e sou ao presente, pois o que tenho de meu é somente esse instante, com suas inúmeras possibilidades. Dentre as quais, posso escolher algumas, não todas. Não se pode ter tudo. Mas, ok. Que aprendamos a distinguir o que é importante, inclusive entre as demandas que aparentam urgência. Pois esse instante é o que temos. Apenas esse instante. Não há porquê consumi-lo com bagatelas.  

“Depois de amanhã não há.  

(…) 

Isto é o que hoje é. 

E, como hoje por enquanto é tudo, isto é tudo” (Primeiro prenúncio, Alberto Caeiro). 

Faça um bom ano novo! 

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