Livros: O Conde de Monte Cristo, Alexandre Dumas

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O Conde de Monte Cristo é um exemplo típico dos clássicos que se entranham no imaginário popular a ponto de não mais se distinguir o que é de origem legítima e o que provém do ouvi dizer ou do vi na TV.  Depois de tantas versões e adaptações inspiradas na obra de Alexandre Dumas cresce a presunção de tê-la lido uma pá de vezes. Mas, aceita um conselho? Enfrente o livrão.  Pegue-o e leia. Pois verá que o original é qualquer coisa anos-luz mais bem contada e esmiuçada. Sem contar que o livro conta uma história bem outra do que, para citar um exemplo recente,  o filme de 2002 relata.

Gosto do filme, das versões e inspirações baseadas na obra. Em termos de atrativos, não têm erro.  O mote tem pegada. Pouco inteligente é manter-me restrita a tais vieses sob pena de perder o melhor da trama e das subtramas desenvolvidas pelo autor.

Quanto a obra em questão, esse foi o primeiro encontro entre nós. Esperava encontrar o que achava que sabia. Qual o quê! O desfecho inesperado foge às fórmulas apresentadas em suas adaptações.

Diz-se que o Conde de Monte Cristo é um romance de aventura. Na minha visão, é um novelão. Um drama com um porte romanesco. Mesmo porque estamos falando de um folhetim. E, quanto a isso, vale dizer que não é tarefa fácil fazer jus à expectativa do leitor, porção a porção, gancho a gancho.  Haja mistérios e revelações! E a trama não desaponta. Tudo bem que o Dumas contasse com uma equipe de escritores que o auxiliava na feitura da ficção, porém, mesmo assim, ele se valeu de expedientes poucos convencionais, para não dizer mirabolantes, para justificar o atraso na entrega da narrativa. No entanto, por mais curiosos que sejam, esses são aspectos contextuais ao livro. Portanto, sigamos para a narrativa propriamente dita.

Ainda que en passant, sabemos da trajetória de Edmond Dantes. Recém promovido ao posto de capitão do Navio Mercante Faraó, é vítima de um complô forjado por um colega de trabalho ambicioso, um vizinho invejoso e o primo ciumento de sua noiva Mercedes. Aliás, impressionante como sujeitos boas-praças tal qual Edmond suscitam os instintos mais primitivos e cruéis daqueles que lhes querem mal! É certo: pessoas que costumam lançar boas vibrações por onde passam são, normalmente, alvo dos que se alimentam do ódio e da inveja. Com Edmond, as coisas não são diferentes. Por intermédio de um estratagema cruel e com a colaboração de um juiz desprovido do senso de justiça e de ética, Dantes vai parar confinado em um prisão no Castelo de If por longos anos.

Da felicidade mais sublime à catástrofe sem igual, da tragédia à sobrevivência. Aonde isso vai dar? Não vou contar o melhor da história. Mas, lancem suas apostas. Considerando o caráter pacato do jovem Edmond Dantes antes da tragédia que o abateu, levando-o a perder a sua liberdade e muito mais, é de se pensar que o seu retorno ao mundo livre fosse acompanhado de um esforço de resgate do seu nome, da sua reputação como homem honesto e trabalhador e, depois, vida que segue. Mas os rumos que um coração, turbado pelo sofrimento, toma, só o seu portador e Deus podem saber. Ainda mais quando esses rumos vão dar em uma ilha misteriosa, com tesouro e tudo dentro.

Mas, nada poderia me preparar para a figura de poderoso chefão na qual Dantes se transforma e a qual, de forma assustadora, veste muito bem. De tão enigmático e estranhamente sobrenatural, passa a ser comparado a um vampiro, um morto-vivo. Aparentemente, ele está vivinho da silva. Por dentro, um Edmond implacável, converte seu coração em cinzas. Mata a misericórdia para viver a sua motivação. E é assim que, das sombras, Dantes manipula as fraquezas e desejos dos seus antigos algozes à favor da sua vingança. Vingança que dá um prato cheio e transbordante. E Dantes deixa-se empanzinar a ponto de se intoxicar. Até quando é possível interromper esse danoso processo de maneira a salvar a sua própria alma da destruição completa? Será que a vale pena, em nome da vingança, desistir de sua autoridade moral de, um dia, poder gritar contra qualquer injustiça?

Leia o livro e faça seu próprio juízo. Como incentivo, a composição de tensão e ritmo na medida certa é o imã que nos mantém de olhinhos grudados no livro, do início ao fim. A partir daí, a leitura, já tão promissora, torna-se irresistível.

Alexandre Dumas, Zahar, 1411 páginas.

1. Veja bem: Esse pôster inspirado na obra de Dumas faz jus à natureza intrigante da obra. O mais legal de tudo é que o quadro é feito de palavras.  A cor preta do desenho é puro texto provindo dos dezessete primeiros capítulos do livro de Dumas.

2. Toda ouvidos: Ao fim do leitura, ecoou na minha alma a seguinte fala reportada ao poeta francês Paul Verlaine: Se esses ontens fossem devorar os nossos belos amanhãs?

3. É de dar gosto: Estou embasbacada com as ilustrações de Pavel Tartanikov para a edição de “O Conde de Monte de Cristo” publicada pela Black Cat.

4. Mete o nariz: Esse trecho compõe uma análise do perfil de Edmond Dantès feita pela consultora editorial, Imogen Russel Williams. Adéqua-se ao que penso e a tradução livre segue aqui: “O Conde tem muito em comum com, digamos, Batman; em sua nova encarnação, ele está irreconhecível para quase todo mundo –  tem poderes que parecem quase sobrenaturais, mas que, na verdade, derivam de seus recursos ilimitados. Ele é impulsionado por traumas do passado e da injustiça, mas é finalmente forçado a confrontar o fato de que ele também se desviou do lado dos anjos, tornando-se quase tão pernicioso como os vilões que persegue.”

5. À flor da pele: Amo os clássicos. Desde de pequena, eu os lia com voraz curiosidade. Neles, encontrava lições que confortavam o meu coração nos momentos que as necessidades da alma mais as requeriam. Os clássicos comportam histórias tinindo de novas, que se refazem a cada releitura, porque clássico que é clássico é assim: desafia a ação do tempo. Quanto mais releituras, mais vigorosa se torna a narrativa. Pois é, meus caros, clássicos não são ferro velho, não. E tenho dito.

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