A vida deveria ser um progresso das nossas experiências, eu ouvi dizer.  Complicado absorver isso uma vez que me falta o talento. Porque sempre falho em acertar o passo. Estou sempre colhendo os desvios dos meus atrasos. Não sei em que ponto estou. Ora estou recolhida na minha idade; ora sou a criança que sai da cama a se divertir com o dia. Em outras tantas vezes, vou assim mesmo.  Com os meus duzentos anos.  

Será isso um progredir? Viver o momento da melhor maneira que posso? Mesmo quando impotente e falha não deixar de fixar o alvo? 

Entendo que o ápice de todo o progresso  pessoal a atingir é a bondade. 

Quero conhecer em mim a bondade. Mas são os meus resmungos que escuto ranger.  Entre um resmungo e outro, encontro uma réstia de entendimento que permite ver que não é de largura que preciso. Peço raízes. Profundidade.

Então persisto em testar a dureza da profundidade. Odeio o raso. Não a obviedade. Essa é enganosamente tida por fácil. Não a creio fácil. A obviedade costuma falar no silêncio. Por isso poucos a escutam e assim mesmo o fazem batendo a testa na parede. A obviedade tem mistério, pois se camufla no que queremos ver, se esconde no que pensamos saber, no lugar fatal do presumido. É difícil a obviedade declarar a olhos vistos a nossa cegueira. 

Sou óbvia em querer a profundidade em tudo. No gostar, no consultar, no fazer, no aprender. O profundo é claro. De cara se apresenta em segredo. É o mistério em estado de pureza, com coisas estranhas e maravilhosas. 

E a vida pede profundidade. Rasgar o véu da ignorância para o descobrir o definitivo. O que sempre foi, é e será. Conhecer a vida pelo lado de dentro.  

O que já é sabido logo de início por alguns poucos.  

Outros conhecem nos últimos suspiros o que muitos levam a vida inteira para conhecer. 

 Para a maioria nem isso nem aquilo.   

Para a maioria o término é inacabado em vista de toda uma trajetória sem progresso, interrompida pelo viver sem esforço, como se não houvesse um ponto de chegada.   

Mas há. Se não houve retorno à origem é porque não houve o fim. Houve somente a perda. A morte. Pois o fim de tudo é a restauração da vida. 

Agora dou-me por desafiada a buscar colher a boa medida do óbvio e do profundo. A mistura desses dois mundos. 

Aqui viemos com a vida que temos.  E o que trazemos é o pulsar do tempo que nos dita o passo e o nosso prazo de acontecer. De contar e fazer a história de nossas vivências, das arquivadas e ressuscitadas às em vias de se revelar. Mas não é de largura que precisamos. Mas sim de profundidade. 

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