Opinião: Fico com a leveza das tartarugas

- Opinião

Entendo que a leveza organiza o pequeno caos de nossas vidas. Mas não é a panaceia que andam dizendo por aí afora.

Não há kits de felicidade ou fórmulas de 7 passos que possam nos ensinar a ser leves.

Leveza não precisa de pretexto. É coisa que aprendemos quando damos tempo ao recolhimento. Chegada a hora, você chega lá sem ir. Pois ela esteve sempre à porta. Não tínhamos olhos para vê-la, mas agora a vemos.

Só precisávamos de estar onde estamos. Equilibrando um punhado de fases ruins, com outras tantas passáveis e  com a cota abençoada das fases boas.

Dito isso, quando vier aquele alguém, sempre um bem-intencionado, a dizer que você não está bem. Que precisa viver melhor. Que desse jeito não dá. Tristeza não pode. Melancolia, nem pensar. Angústia? Vá de retro, coisa ruim — desconfie do discurso!

Discursos assim anunciam que para ser leve a primeira coisa a ser esquecida é a leveza.

Ai de nós, se ao procurar viver com leveza, optemos por abraçar a paz do martírio. Ai de nós, se ao buscar sentir uma coisa boa entre os que doam abraços, nos sintamos bem melhor na companhia da mais perfeita solidão.

Cá de mim, acredito que para ser leve só com contrapesos. Pois se houver apenas leveza, logo estaremos morando nas nuvens. Anestesiados por esse bem-estar de volátil substância.

Corpo pra quê? Envelhece, degenera, apodrece. Não combina com leveza. Sejamos só alma. Tsc, tsc…

Tá faltando complemento, minha gente. Um pouco de realidade nessa vida vai bem, sabe?

Raios de luz são ótimos, sombra é vida boa. Mas, as tempestades para agitar as ondas paradas são inevitáveis. E quer saber? Pode ser que nessas  mesmas tempestades estão os tesouros que você tanto procurava,  perdidos lá no fundo daquele velho baú das coisas aprendidas, mas pouco percebidas, muitas vezes esquecidas.

A gente que pisa o mesmo o chão e é feita da mesma fibra, a gente sabe. Tem hora que a dor não passa. E por mais fórmulas de bem-estar que existam por ai, a sair pelo ladrão, não haverá alternativa senão a de ter que passar um tempo com a dor. Olha essa sacada da poeta israelense tal nitzán.

Instruções

Se a dor não passa com 1 tablete
2 tabletes podem servir
mas não exceda 6 tabletes
em 24 horas.
Se 48, 72 horas já se foram
e os tabletes terminaram
e a dor ainda não passou —
você passa pra ela,
veja o quanto ela precisa de você,
transforme-a num quarto, numa poltrona,
entregue-se a ela.

Captou a mensagem? Não creia nessa leveza empacotada em si mesma. Que alivia anestesiando, cauterizando o espírito. É insustentável carregá-la consigo assim, banindo da trajetória a dureza, escamoteado a evolução, não permitindo que os seus sentimentos oscilem…

“Nenhuma balança pode nos dizer se estamos leves ou pesados, a não ser a interna”. Li em um livro do Nilton Bonder.

Concordo. É só a  gente que pode dizê-lo não é mesmo?

Vou terminar por aqui por que  leveza  é caminhada para toda a vida.

Falando nisso, já repararam o caminho percorrido pelas tartarugas até chegarem ao oceano? É cheio de perigos, incertezas e imprevistos, mas, elas, com todas as suas limitações, não desistem. Caminham em unidade e consistência com as linhas do seu plano.

Taí. Fico com a leveza das tartarugas. Sempre aspirando o destino final, o sublime descanso,  mas sem abandonar a trajetória dura, difícil, mas ainda assim tão linda.

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