Coração aquecido: O cultivo da vida interior

- Coração aquecido

A vida essencialmente livre, a soberana concepção da dignidade humana, a posse atual do universo e do infinito, a libertação de tudo o que passa, o sentimento de sua superioridade e de sua força, a energia invencível da vontade, a penetração perfeita de si próprio, a autocracia da consciência que pode dispor de si,  todos esses sinais de uma indomável e magnífica personalidade, de uma natureza consequente, profunda, completa, harmônica, indefinidamente perfectível, inundavam-me de alegria e de reconhecimento. Eis aí uma vida, eis aí um homem! Estas perspectivas abertas sobre um interior de uma grande alma fazem bem. Com este contato nos fortificamos, nos restauramos, nos retemperamos“.  Diário íntimo, Henry-Frédéric Amiel, filósofo e escritor.

Quis muito encontrar ocasião para compartilhar aqui no blog esse tesouro de pensamento retirado do livro “O diário intimo“, de Amiel. Esse, depois da Bíblia Sagrada, tem sido o meu livro de cabeceira. Não houve uma vez sequer que dessas leituras eu tenha saído sem trazer comigo ao menos uma inquirição pensativa, uma centelha de inspiração.

Por falar em inspiração, quero deixar com vocês o pensamento que a citação acima me revelou, a saber: o dever de cada um de nós é o de construir uma morada interior tão sólida a ponto de ser semente de vida para os outros.

Em um mundo em que muitos, evadindo-se de si mesmos, ocultam-se na literalidade do aparente, é necessário preservar o sentimento da circunspecção e jamais descuidar dos seus dentros.

Afinal, é desinteressante, pouco inteligente, ficar só na casquinha. Ninguém vive para si. O humanismo medíocre e  monstruoso atual isenta-se da questão fundamental do “para quem vivemos”. Eu digo: não é digno desse tempo conceber o mundo dentro de um contexto em que o dar e o receber não seja parte da essência humana.

O fruto produzido por uma vida interiormente saudável ajuda a alimentar o mundo. Não nos basta a fome física, não queremos só comida. Há também em nós a fome do transcendente. Há a fome de buscar cultivar coisas que não nasceram dentro de nós. Daí a necessidade de se cultivar uma vida interior.

Sendo preciso, na maioria das vezes, escolher racionalmente fazer aquilo que está na contramão do que gostaríamos de fazer. Nada mais do que trazer, de fora para dentro, mediante o hábito, as virtudes que não temos, que nada mais são do que ferramentas para bem viver.

Creio que o atributo primeiro para o cultivo de uma vida interior é o autoconhecimento. Conhecer é ser íntimo de algo, de alguém. No entanto, a julgar pelo desprendimento com que nos desfazemos dos valores que nos dizem quem somos, não é de se espantar a crise existencial pela qual tem sofrido grande parte das pessoas que, por sua vez, lança mão dos mais apelativos mecanismos de defesa (agressividade, superficialidade, indiferença, hipocrisia…) para tentar ocultar as rachaduras do seu mundo interior.

Na fuga não está o remédio. O remédio  está em encontrar o caminho de volta.

Certa feita, ouvi ou li  de alguém o seguinte conselho: inicie o seu dia lembrando-se de quem você é e no que você acredita.

E eu acrescento: nas atividades mais comezinhas da vida é possível encontrar princípios que nos ajudam a receber a graça da revelação, a perceber os pequenos desvios que nos levam a cair no meio do caminho, a encontrar o acesso correto à intuição moral para não se deixar contaminar com o que não nos faz bem.

Tanta energia (tempo) desperdiçada quando há tanto a ser feito! A começar por aprender a dormir e a despertar, descansar (que não significa dormir), aprender o que e como comer, o que vestir,  aprender a andar, a pensar, a ter foco e atenção…enfim, a lista de coisas práticas e essenciais é extensa e significativa quando o assunto é viver bem a vida, ainda mais quando se põe em questão a necessidade deveras negligenciada do descanso mental.

Pois vou lhes dizer. A combinação de sobrecarga mental com inchaço da alma é o que nos tira a capacidade de absorver as coisas mais sutis, o que só é possível de nos ser revelado na dimensão do transcendente.

Portanto, de início, aprenda a zelar pelas atividades acima. Coloque-as em sua agenda diária, pois cada uma delas contêm  princípios que nos orientam a discernir o certo do errado, o bem do mal, o bom do ruim…coloque a sua consciência na execução de cada uma delas.

Perceba, não é a atividade em si que proporcionará a mudança, mas o princípios nelas contidos e a disposição reflexiva com que as executamos, de modo  a trazer para a vida ativa a tão necessária paz interior.

A partir de então, o que acontece é que passo a reconhecer o valor da riqueza do tempo e a levar em conta o espectro maior da vida que é o de nos dar a consciência do fim de nós mesmos. Porque passo a discernir a centralidade das coisas em minha vida. E o que percebo é que a  prioridade não são as coisas, mas  a centralidade outrora esquecida, desprezada e perdida do meu ser. Consequentemente, nasce a vontade consciente de prontamente zelar pelo meu templo interior, o oratório que me leva ao trono onde Deus habita.

Somos seres finitos. Portanto, esforcemo-nos em deixar um legado que não ecoe na posteridade uma existência vazia e sem fruto. Talvez não seja de pronta percepção para alguns, mas é muito comum, levar uma vida inteira fundamentada na determinação férrea de impor aos outros os nossos desejos e caprichos, no egoísmo de obrigar os outros a pagarem caro pelas nossas inconsequências. Isso só para citar exemplos do que tem sido a tônica dos tipos crassos de desarmonia cada vez mais presente nas relações humanas.

Eu digo, ganha-se mais buscando tomar conhecimento do seu mundo interior, pois “o homem que não tem vida interior é escravo do que o cerca”. Henry Amiel.

Não se iluda!

Uma vez que assim na terra como nos céus, saiba que o precipício é fisico, é  existencial e espiritual, porque são a mesma realidade. E o precipício está logo ali, próximo ao sentimentalismo tóxico no qual, por fuga de si mesmos, muitos se lambuzam, cujo efeito é o da mais completa cegueira, em razão da qual se perde a segurança profética de antecipar a ruína. Mas é fato. Um abismo chama outro abismo. Afastar-se dele requer que aprendamos a defender resolutamente a nossa alma de tudo o que a contamina.

Em série: Descendants of the sun

- Em série

Doramas.

Não sabemos bem o que são, como vivem e o que fazem.

Mesmo assim, sem bússola nem roteiro, resolvemos adentrar esse universo quando fizemos de uma série coreana a rotina de nossos domingos.

Embora a série não estivesse em nosso itinerário, não demorou muito para que conquistasse a nossa atenção.

E o que as tardezinhas dos últimos domingos nos traziam?  Descendants of The Sun.

Descendants of the sun conta a história de amor entre Yoo Si Jin,  capitão da Unidade de forças especiais da Coreia do Sul, e Kang Mo Yeon, médica do setor de emergência de um grande hospital.

A partir do primeiro encontro é dado o conflito que bate com toques de medinho e ansiedade no coração da bela doutora Kang: dá para apostar em uma relação com um cara cujo trabalho  o coloca em situações de risco à vida?

E assim vão os nossos olhinhos a acompanhar a figura do chove e não molha do “namoro ou não namoro” a surgir com muita recorrência durante mais da metade da série.

À medida que a trama vai tomando corpo e altura, acentua-se ainda mais a linha tênue entre o sentimento e a razão quando o destino os coloca próximos um do outro em Urk, território fictício em guerra. Ele como soldado e ela como médica voluntária a compor as forças de manutenção da paz e segurança da ONU .

Nesse cenário inóspito, ambos têm a oportunidade de se conhecerem melhor e, com o convívio, passam a nutrir admiração e respeito um pelo outro,  e o interesse físico fica cada vez mais aparente.

E o dilema também. Desistir de amar alguém em função da expectativa de que um futuro trágico possa acontecer ou  concentrar energia no factível, seguir o curso do hoje e partir pro abraço?

Eu entendo o lado da doutora Kang. As suas ponderações antes de entrar de cabeça em uma relação vão ao encontro do que penso sobre namoros. Também gosto da ideia, para muitos antiquada, do cortejo. Um homem e uma mulher só devem assumir um namoro se estão compromissados em desenvolver uma relação que seja pra valer. É questão de honra e dignidade viver um relacionamento verdadeiro e duradouro com o escolhido ou a escolhida. Se o pretendente não se encaixa nesse padrão, nada feito. Isso se chama preservação da alma.

O romantismo está presente, porém bem distante do clima sentimental ao extremo em que basta haver paixão para que, em seu nome, se adquira a chancela para cometer atos de insanidade. O romance conforma-se ao atos de bravura e heroísmo, atos altruístas em que ambos os personagens se revezam com muita belezura e elegância.

O compromisso tanto da parte dos médicos quanto da parte dos soldados é com os princípios da honra, do dever e da lealdade à pátria. Nesses momentos, reclama-se uma pausa no romance para, entre outras missões, livrar o mundo de um vilão traficante de armas e explorador de menores e enfrentar um surto de uma doença viral espalhando-se pelo quartel.

Entre o dever e a paixão, a história destaca a eternidade do hoje e o seu caráter viável. Do futuro nada se sabe exceto que ele se desdobra nas realidades as mais variadas. Sendo, portanto, melhor assumir que é de coragem que se vive e  encarar o que vier, desde que se saiba em que terreno se está a pisar. Com uma forçadinha do roteiro, a coragem é repetidamente requerida para fazer frente aos momentos dramáticos a demandar dos personagens força diante do perigo.

Por fim, há mensagens significativas que fui colhendo ao longo de cada episódio, entre as quais a de que mesmo parado nunca se está de fato. Se você não se movimenta, a inércia é preenchida com acontecimentos jamais esperados. E se você planeja, é preciso antecipar, para além dos ventos favoráveis, a possibilidade de desvios no meio do caminho. Seja o que for, cabe-nos sabiamente tomar posição, corrigir os erros de escolha, os erros de cálculo e seguir em frente.
And the end.

Caro leitor, nós sabemos. Esse não é um tema palpitante. Nós já vimos esse filme zilhões de vezes, não é mesmo?

Mas, veja só. Com a gente aconteceu o seguinte:

A forma com que a história foi apresentada conquistou-nos a cada episódio. E o carisma dos atores e atrizes foi um peso a favor, um elenco espirituoso, travesso, a jorrar uma alegria  de criança de forma contagiante.

É certo que a série tem uma estreita conexão com o apelo emocional. Para quem anda evitando fortes abalos emocionais vale ressaltar que, de outra parte, a série é bem dosada com um toque divertido de humor e de cenas absurdas de ação.

Mais para o finalzinho, senti um medinho de ter que lidar com situações cujo impacto equivalesse a tristeza com anabolizantes. Não vou falar mais nada, assista.

Também não dá para fazer vistas grossa ao fim propagandístico do drama. O contexto geopolítico é bem evidente, demonstrando que não se trata apenas de uma simples de história de amor. Além de explorar o conflito entre Coréia do Norte e a do Sul, há um forte direcionamento à cultura islâmica e ao Oriente médio. Dizem que os dramas coreanos fazem sucesso por lá. Mas sabemos que há mais que entretenimento em jogo nessa história.

A política antes de tudo.

1. Veja bem: A Urk de Descendants of the Sun não tem nada a ver com a Urk real que, por sua vez, fica na Holanda. Mas na série, onde se vê Urk, na verdade se vê a Grécia. Desde então, a  “Urk grega” tem recebido uma onda de turistas chineses e coreanos loucos para tirar uma fotinha de um velho navio fincado na areia. O motivo? Ele serviu de cenário para os passeios românticos de  Yoo Si Jin  e Kang Mo Yeon.

2. Toda ouvidos: A trilha sonora é um show. De algum modo, lembrou-me um pouco da vibração da música latina. A título de comprovar o que disse, aqui segue uma palhinha de uma música bastante tocada durante a série: Talk Love, do cantor K.Will.   Vale a pena ouvir a trilha sonora completa no Spotify.

3. Mete o nariz: O chove e não molha não se restringe ao casal de protagonistas. Não há dúvidas de que Seo Dae-Young e Yoon Myeong-Joo fazem um belo par, com uma relação bem mais complexa e com conflitos mais interessantes do que o casal principal e, por isso, mais bonita. Torci muito por eles. Ah, vou dizer. É o meu casal preferido da série. Aquele “beijo” através da janela de uma cafeteria é de arrancar suspiros.

4. À flor da pele: Eu demorei a me acostumar com a despedida dos personagens. São carismáticos em alto nível. Para matar a saudade, criei um painel só de fanarts no pinterest.

5. É de dar gosto: Pessoal, diga aí: será que todos os doramas se desenrolam com base na mesma pegada do que vimos? Se assim for, anunciamos que, desde já e até segunda ordem, a temporada de caça aos doramas começou. Olhando o acervo da netflix, mal sabemos por onde começar.

Opinião: Fico com a leveza das tartarugas

- Opinião

Entendo que a leveza organiza o pequeno caos de nossas vidas. Mas não é a panaceia que andam dizendo por aí afora.

Não há kits de felicidade ou fórmulas de 7 passos que possam nos ensinar a ser leves.

Leveza não precisa de pretexto. É coisa que aprendemos quando damos tempo ao recolhimento. Chegada a hora, você chega lá sem ir. Pois ela esteve sempre à porta. Não tínhamos olhos para vê-la, mas agora a vemos.

Só precisávamos de estar onde estamos. Equilibrando um punhado de fases ruins, com outras tantas passáveis e  com a cota abençoada das fases boas.

Dito isso, quando vier aquele alguém, sempre um bem-intencionado, a dizer que você não está bem. Que precisa viver melhor. Que desse jeito não dá. Tristeza não pode. Melancolia, nem pensar. Angústia? Vá de retro, coisa ruim — desconfie do discurso!

Discursos assim anunciam que para ser leve a primeira coisa a ser esquecida é a leveza.

Ai de nós, se ao procurar viver com leveza, optemos por abraçar a paz do martírio. Ai de nós, se ao buscar sentir uma coisa boa entre os que doam abraços, nos sintamos bem melhor na companhia da mais perfeita solidão.

Cá de mim, acredito que para ser leve só com contrapesos. Pois se houver apenas leveza, logo estaremos morando nas nuvens. Anestesiados por esse bem-estar de volátil substância.

Corpo pra quê? Envelhece, degenera, apodrece. Não combina com leveza. Sejamos só alma. Tsc, tsc…

Tá faltando complemento, minha gente. Um pouco de realidade nessa vida vai bem, sabe?

Raios de luz são ótimos, sombra é vida boa. Mas, as tempestades para agitar as ondas paradas são inevitáveis. E quer saber? Pode ser que nessas  mesmas tempestades estão os tesouros que você tanto procurava,  perdidos lá no fundo daquele velho baú das coisas aprendidas, mas pouco percebidas, muitas vezes esquecidas.

A gente que pisa o mesmo o chão e é feita da mesma fibra, a gente sabe. Tem hora que a dor não passa. E por mais fórmulas de bem-estar que existam por ai, a sair pelo ladrão, não haverá alternativa senão a de ter que passar um tempo com a dor. Olha essa sacada da poeta israelense tal nitzán.

Instruções

Se a dor não passa com 1 tablete
2 tabletes podem servir
mas não exceda 6 tabletes
em 24 horas.
Se 48, 72 horas já se foram
e os tabletes terminaram
e a dor ainda não passou —
você passa pra ela,
veja o quanto ela precisa de você,
transforme-a num quarto, numa poltrona,
entregue-se a ela.

Captou a mensagem? Não creia nessa leveza empacotada em si mesma. Que alivia anestesiando, cauterizando o espírito. É insustentável carregá-la consigo assim, banindo da trajetória a dureza, escamoteado a evolução, não permitindo que os seus sentimentos oscilem…

“Nenhuma balança pode nos dizer se estamos leves ou pesados, a não ser a interna”. Li em um livro do Nilton Bonder.

Concordo. É só a  gente que pode dizê-lo não é mesmo?

Vou terminar por aqui por que  leveza  é caminhada para toda a vida.

Falando nisso, já repararam o caminho percorrido pelas tartarugas até chegarem ao oceano? É cheio de perigos, incertezas e imprevistos, mas, elas, com todas as suas limitações, não desistem. Caminham em unidade e consistência com as linhas do seu plano.

Taí. Fico com a leveza das tartarugas. Sempre aspirando o destino final, o sublime descanso,  mas sem abandonar a trajetória dura, difícil, mas ainda assim tão linda.