Projeto Ilha Deserta: Madame Bovary, Gustave Flaubert

- Projeto ilha deserta

Ouvi tantas histórias intrigantes sobre os bastidores da feitura de “Madame de Bovary” que não resisti a fazer da leitura uma espécie de encontro com Flaubert. Pelos fiapos aqui e acolá do que fui descobrindo do escritor nas incursões pré-leitura que fiz, suspeitava que penetrar o intricado interior do universo dos Bovary seria como ter um vislumbre de corpo inteiro do escritor. Como se, esquadrinhando as escolhas do autor, eu pudesse alcançar, claro que em minúscula medida, os recantos de sua alma.

E então…

Flaubert, que escritor! A escrita o revela em seu método a privilegiar sobretudo a arte de escrever um romance. Igualmente reveladora é a renúncia ao entusiasmo artístico em benefício da própria narrativa. Isso é para poucos. Uma das coisas mais interessantes que aprendi sobre ele é que, em contracorrente à mitificação da inspiração criativa, Flaubert é antes de tudo do fazer operário. Que coisa linda isso! Pelo que, também por isso, pude notar o seu esforço tangendo visível em cada linha da narrativa como que a provar que o trabalho existe para confirmar o estilo.

E ponha trabalho nisso! Escrever Madame Bovary foi um percurso de anos difíceis. Cinco anos até dar a obra por concluída. Cinco anos que estão no âmago da energia que as páginas descortinam, a saber: a resistência em não desistir a despeito dos limites, interdições e insuficiências.

“Estou mais cansado do que se empurrasse montanhas. Há momentos em que tenho vontade de chorar. É preciso uma vontade sobre-humana para escrever e eu sou apenas um homem”. (Gustave Flaubert quando do processo de criação de “Madame Bovary”)

É esse o espírito que veste a narrativa. E o resultado é uma obra bem meditada e madura que parte de uma situação particular para conjurar um universo de temas intrinsecamente ligadas à problemática da existência humana.

Emma Bovary é um mundo à parte, um universo de desejos o qual nos diz muito respeito. É ela própria a síntese dos muitos desejos. Acho genial e perfeita a tradução do perfil psicológico da personagem. Uma bela mulher, dona de casa, frustrada, insensível, infeliz, destituída de empatia, temerária, impulsiva, entre tantos adjetivos que a ela se ligam de forma convincente ainda que alguns desses muito nos irritem. Emma é um alguém viciado em emoções fortuitas. A serviço do seu ego, é incapaz de fazer uso do livre arbítrio visto que o oposto da liberdade é a compulsão.

No caso de Emma,  satisfazer o desejo significava o banimento da realidade. Como leitora assídua e ingênua dos romances, a personagem mergulhava fundo no escapismo sem conseguir sair de lá, tornando as histórias as substitutas da vida. Emma não mais conseguia viver sem exagerar o filtro da divagação mental em que criava um mundo onde pudesse ser quem desejava ser, onde pudesse viver aventuras tais como as contadas nas histórias que lia, onde pudesse amar e ser amada tal como as suas heroínas ficcionais.

E, assim, vivia, Ás apalpadelas; atrás de sensações externas para satisfazer seus anseios mais íntimos, tendo por recompensa a prisão de andar em círculos, no labirinto oco e vazio de si mesma. Que vida! Que carga pesada de se levar!

Cá de mim, fiquei a pensar na cota de felicidades escapistas pelas quais ansiamos a vida inteira.  Em maior ou menor medida, qual a porção de bovarismo que nos cabe? O realismo de Flaubert não me deixa mentir. Ele que não foi nenhum profeta, mas um grande observador do comportamento humano, apresenta um elenco de comportamentos que define bem a sociedade atual. Hoje afastar-se de si mesmo em prol do culto ao autoengano é a regra. Que proveito há nisso?

Enfim, é comovedora e digna de lamento a ruína de Emma Bovary exposta aos pouquinho ao leitor. Que tortura, meus caros! É assustadora a forma vampírica com que Emma se aproxima do objeto de interesse sem comprometer-se com a contrapartida. Porém, lamentei muito a sua perda por jamais ter entendido a vida, por ter-se tornado vítima e algoz de si mesma, por não ter tido sequer boas ações das quais pudesse colher os dividendos.

Mas, Emma é o que é: uma boba que à luz de sua trágica vida nos ensina muito acerca do demasiadamente humano.

Madame Bovary é um livro ao qual quero retornar em outra oportunidade, pois o que se pode dele extrair não se esgota em uma única leitura. Não é história para se ver da sacada, minha gente. É livro que se lê olhando pra dentro, pois fala muito do que é conhecido em nós.

E assim dou por concluída essa etapa do projeto “Ilha deserta” que, nesse mês, sofreu um atraso considerável em razão de motivos de saúde que me impediram de cumprir com a agenda de postagem. Mas, tá resolvido. Post entregue. Sigamos!

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Essa leitura integra o desafio literário Projeto Ilha Deserta. Saiba mais sobre o projeto aqui.

Leia a nossa impressão de leitura referente ao primeiro mês do Projeto. A metamorfose, Kafka;

Leia a nossa impressão de leitura referente ao segundo mês do Projeto. Quincas Borba, Machado de Assis;

Leia a nossa impressão de leitura referente ao terceiro mês do Projeto: As Reinações de Narizinho, Monteiro Lobato.

E saiba mais sobre o livro que inspirou o projeto Ilha Deserta aqui.

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