Projeto Ilha Deserta: A metamorfose, Kafka

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a-metamorfose1Hoje completa o primeiro mês desta náufraga aqui na ilha deserta e confesso que a experiência começou bem turbulenta. Talvez pela  companhia  que levei comigo, afinal foge totalmente aos padrões convencionais de normalidade a que estou habituada.

Kafka teria me pregado uma peça? Apresentou-me, o até então desconhecido para mim, Gregor Samsa, sem ao menos me precaver do que estaria por vir! Não tinha uma companhia menos asquerosa, não? Poxa vida! Pensei que iniciaria uma temporada tranquila, mais relax na ilha.

Logo de início, sem nenhum aviso prévio, ou melhor, na primeira página, o cara se transforma do nada, em um inseto. Logo eu que tenho nojo e medo do bicho, que imagino eu, ele tenha se transformado.

A ideia do personagem central da trama, aquele tipo comum, caiu por terra. Eis que me vejo diante de um ser descontruído pela mente brilhante de um autor que não se contentou em oferecer mais do mesmo. E me pergunto como Kafka conseguiu inventar uma criatura tão estranha e envolvente  ao mesmo tempo?

Sim, porque me esqueci do local paradisíaco em que me encontrava e mergulhei na breve história de Samsa. E foi um soco no estômago. Kafka expõe sem dó a miserável condição humana. E joga na cara o quão mesquinhas nossas atitudes podem ser e o quanto  elas nos revelam sobre nós mesmos. E aviso:  isso pode doer.

E com toda sua sagacidade, Kafka tocou a ferida e me fez engolir a figura de um homem-inseto como o personagem principal com o qual teria de conviver durante toda a história. E qual a finalidade de tudo isso, indaguei a mim mesma.  Expor as  mazelas que nos esforçamos para esconder, tal qual o fez a família de Samsa. Empurramos e trancamos para dentro do quarto tudo o que é feio, que pode espantar quem chega perto.  Queremos a casa “arrumada” para recebermos as visitas, e darmos curso as nossas vidas com um sorriso nos lábios. E assim, esquecer que naquele quarto mora algo que está escondido e que revela o que de pior somos.

A história desse homem me transportou para uma realidade que presencio todos os dias a caminho do trabalho. Me deparo com tantos Samsas por aí.  Embaixo dos prédios do setor comercial em que trabalho existe um submundo onde habitam, por incrível que pareça, pessoas as quais não queremos ver, mas que estão ali para nos mostrar o quanto somos hipócritas. São mendigos, drogados, prostitutas que residem nos becos escuros e sujos  e que de tão “habitual” já fazem parte do cenário.

E me espanto quando um ou outro surge para me assustar e amedrontar. É melhor para todos que estejam escondidos, comendo restos de comidas e sobrevivendo da forma como puderem, desde que bem longe dos humanos, como o personagem da trama kafkaniana. Enquanto escrevia esse texto, de súbito, me veio à mente a figura de um senhor que por entre nós transita, todos os dias, envolvido em um saco de lixo. Essa é  sua vestimenta. O que ela me revela? A sua figura é emblemática, e como não tenho como não compará-la a de Samsa, inseto asqueroso? Temos a tendência  de ignorar aquilo que nos enoja e nos causa horror. De longe, não se parece com uma figura humana, mas se chego perto me deparo com um homem, com sentimentos e emoções, simplesmente debilitado e enfraquecido pelas condições da vida e por minha falta de compaixão.

Kafka consegue fazer com que me compadeça por aquele inseto que antes achava tão repugnante.  Todo o mal estar em relação aquela criatura  havia se esvaído e, por muitas vezes, meu coração se apertava com o seu sofrimento. E o meu asco já não era dirigido para ele, mas para sua família. Por vezes, me peguei sentido náuseas diante da  forma como eles o tratavam.

Encerro esse breve relato dizendo que Kafka e Samsa foram ótimas companhias para mim na ilha deserta. E, Kafka, você não é tão louco assim. Enxergou aquilo que, por vezes, me recuso a enxergar.  E, como um bom contador de histórias, nos mostra em forma de um breve conto, o quão cruéis podemos ser.

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OBS: Mês que vem tem mais. A outra náufraga, Vivi Lima, relatará as suas experiências com ninguém mais, ninguém menos que Quincas Borbas. Quer participar conosco desta aventura? Então, é só acessar esse link.

Essa leitura integra o desafio literário Projeto Ilha Deserta. Saiba mais sobre o projeto aqui.

Leia a nossa impressão de leitura referente ao segundo mês do Projeto. Quincas Borba, Machado de Assis;

Leia a nossa impressão de leitura referente ao terceiro mês do Projeto: As Reinações de Narizinho, Monteiro Lobato.

Leia a nossa impressão de leitura referente ao quarto mês do Projeto: Madame Bovary, Gustave Flaubert

E saiba mais sobre o livro que inspirou o projeto Ilha Deserta aqui.

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