Livros: Quarto, Emma Donoghue

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20160615_152304No quarto ouvem-se choros,  risadas e desabafos vividos e sentidos intensamente. Ele é tudo para ela. E ela é tudo para ele. Passam-se os dias, meses e anos. E assim, a vida continua no quarto.

O leitor torna-se cúmplice dos acontecimentos que se desenrolam dentro do cubículo de 37m² e observa, como em um big brother,  tudo o que acontece na vida de Jack e sua mãe.

O tema é cruel, mas a narrativa do livro não sobrecarrega o leitor com um fardo pesado. A autora dá ênfase à leitura da criança para narrar os acontecimentos e acerta em cheio ao apostar no olhar infantil para contar a história de forma poética.

Gostaria de ter tamanho talento para, mesmo diante de fatos abomináveis dos quais o livro trata,  conseguir extrair leveza e escrever de forma tão tocante, colocando o leitor no centro de questões pungentes, como o cerceamento da liberdade e o estupro. Uma vez atraído pela história que a autora apresenta, fica a certeza de que não há como sair indiferente ao tema após a leitura do livro Quarto. O que toca Jack e sua mãe toca a cada um de nós.

Sete anos sem contato com o mundo exterior. Para a Mãe, o suplício era não poder mostrar as belezas do mundo ao filho e, talvez por isso mesmo, se desdobrasse para fazer daquele espaço restrito um mundo de descobertas para Jack.

Ambos, desenvolvem a seu modo, artifícios para sufocar a dor de não saber o que se passa lá fora. E, com criatividade, refazem dia a dia a agonia da espera de que, algum dia, quem sabe, um novo mundo se abra para eles.

E quando esse mundo se abre…

o-quarto

Sentamos no sofá para ela ler para mim o Flautista de Hamelim, eu não sabia que ele era um livro, além de uma história. O pedaço que eu mais gosto é quando os pais escutam as risadas dentro do rochedo. Eles ficam gritando para as crianças voltarem, mas as crianças estão num país encantador, acho que talvez seja o Céu. A montanha nunca abrem para deixar os pais entrarem.

Emma Donoghue, Verus, 349 páginas

A virada da história se dá quando se libertam da prisão imposta de 7 anos e se confrontam com um mundo de possibilidades e escolhas. Habituados à rotina diária de quando estavam trancafiados, terão de lidar a partir de agora com os desafios. Estarão preparados para o mundo real?

O processo de adaptação ao novo gera em ambos insegurança e indagações acerca, inclusive, da relação mãe e filho. Repleto de diálogos instigantes que nos fazem questionar sobre o amor, amizade, cumplicidade e sobre a maldade  presente, infelizmente, nas relações humanas. O Quarto é uma obra que emociona na medida certa, sem exageros e pieguices.

colagem quarto

1. Veja bem:  A Disney produziu em 1933 um curta metragem de animação baseado no Flautista de Hamelim, obra citada por Jack no livro.  No desenho, um flautista toca uma melodia na flauta e atrai as crianças para um lugar secreto e lindo. Intrigante a conexão da história do livro com a história do flautista.

2. Toda ouvidos: Em dado momento, no livro, a Mãe diz a Jack que ouvia Bitter Sweet Symphony (1997) quando tinha 13 anos. Ouça-a e tente imaginar o que passa na cabeça de uma criança de 13 anos que tem toda uma vida pela frente e, de uma hora para outra, vê sonhos e projetos de vida trancafiados dentro de um quarto. Tente, ao menos, imaginar.

3. Mete o nariz: “As terças e sextas sempre tem cheiro de vinagre”. Jack dá entender que a Mãe utilizava vinagre para limpar o quarto. Você sabia que o vinagre tem mil e uma utilidades?

4. É de dar gosto: A fofurice do ator Jacob Tremblay, gente! Dá vontade de apertar aquelas bochechas! No Instagram dele (@jacobtremblay) tem muito mais fotos fofas.

5. A Flor da Pele: Embora a autora do livro não associe a história relatada no livro a nenhum situação vivida por personagens reais, inevitavelmente nos lembramos de  casos reais que aconteceram e abalaram a opinião pública mundial. Como esquecer a  figura de Natascha Kampusch? Ela  foi mantida em cativeiro por 3096 dias. O seu drama foi contado no filme  intitulado 3096 dias (2013). O filme está disponível no Netflix.

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2 Comments

  • Reply
    kleber
    10 de setembro de 2016 at 20:08

    Acabei de ler sua resenha e gostei muito. Já li muitas a respeito do livro e do filme, mas vejo que ambos te tocaram profundamente. Comigo também não foi diferente. Acho que depois de ler esse livro você passa alguns dias com as palavras ecoando na cabeça. Seja pela singularidade, algumas tão simples como de uma criança de cinco anos, com seus erros de concordância, mas de uma sabedoria tão grande. Ainda hoje me pego ouvindo o Jack: “Monstros são grandes demais pra existir”. Um abraço.

  • Rê Lima
    Reply
    Rê Lima
    11 de setembro de 2016 at 21:58

    Olá Kleber!
    Primeiramente agradeço o seu comentário em nosso blog. Concordo com você. Não há como não se sentir tocado pelo tema que o livro aborda. Isso, arrisco dizer, se deve a forma como a autora conduziu a história: a relação construída por ela entre os personagens principais, os diálogos marcantes que nos fazem refletir sobre um tema tão delicado, o cenário claustrofóbico, mas que se expande a cada situação apresentada. Enfim, tudo conflui para que, como leitores, possamos nos envolver com a história e sobretudo refletir acerca das relações humanas.
    Espero que você volte mais vezes e fique a vontade para comentar sempre que puder.
    Abraços!

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